Era só ver aquele ventinho girando no quintal pra Vó Ana nos avisar que o Saci ali estava. Eu e meu irmão Mauro desde cedo aprendemos que pra pegar o Saci tinha que pegar um “balaio” (peneira) colocar em cima do redemoinho de vento, e em cima da peneira uma garrafa com a boca virada pra baixo, ai era colocar rapidamente a rolha na garrafa que aprisionava-se o menino preto de uma perna só. Mas nem entendiamos bem qual era a do Saci, se existia mesmo ou não, o que era certo é que o ventinho em redemoinho precedia o vento forte que vinha do “morro” junto com uma poeira vermelha, vermelha da cor do gorro do Saci.

O “morro” continua lá, logo após a “Rua de baixo” e o “riozinho”, a diferença é que agora não venta mais terra vermelha que nem antigamente, pois o morro virou uma cidade, a cidade do Sol: Heliópolis. A área de aproximadamente 20 campos de futebol e uma pista de motocross deu lugar a uma verdadeira cidade com mais ou menos 100 mil habitantes, sendo que, a grande maioria, se não tem as  mesmas raízes étnicas do nosso ilustre amigo Saci, vive à margem do sistema como ele. O que boa parte da população não lembra é que esses amigos contribuiram marcantemente na construção dessa cidade.

Assim como a terra vermelha o Saci também sumiu, não da minha mente e de outros trintões, mas sumiu do imaginário da molecada. Suponho que o modo de vida dos papais e mamães de hoje não contempla transferir a história oral das coisas que ouviam de seus pais e avós, contempla no máximo colocar o moleque de manhã na escolinha, pedir pra alguém pega-lo à tarde (ou pegá-lo geralmente atrasado por conta do trabalho, trânsito etc) e depois por dor na consciencia levá-lo no MaqueDonaldis para  contrabalançar a dor na consciencia ocasionada da ausência: “Papai tem que trabalhar pra ganhar dinheiro…”, “Mamãe vai ganhar dinheiro pra gente ir no MaqueDonaldis…”. Enfim, folclore não faz parte desse modus operandi.

Se somos obrigados a reconhecer que as coisas mudaram – quase não tem mais terra vermelha! – Não tenho certeza que é possível perceber com objetividade que “melhorou” ou “piorou” como os políticos gostam de dizer. A urbanização por exemplo tomou conta de onde eu moro (e de onde você mora também né?). Em alguns casos ela se deu ordenadamente, bonita, frondosa (!), em outros foi “meia boca”, sem uma estética nem planejamento. No raciocínio do mestre, o professor Milton Santos (que era negro que nem o Saci), é possível verificar a olho nú os interesses do grande capital observando a olho nú o espaço. Em São Paulo, por exemplo, o espaço bonito foi eleito pelas elites que pouco a pouco criaram meios para que o topo do espigão passasse por mutações e continuasse belo, do Paraíso à Consolação. O contrário pode ser observado em qualquer região periférica de SP.

Feito esse preâmbulo, não é que de uns tempos pra cá, aparece nuns lugares que transito um curioso graffiti ilustrando um SACI URBANO!!!! Já faz um tempo que acompanho esse moleque travesso nas pilastras de viadutos, fazendo pirueta na beira de rios, paredes, muretas e tudo quanto é espaço urbano, especialmente de São Paulo e do ABC paulista. Já haviam me dito que o artista dessa peripécia morava no ABC, e não é que hoje conheci o caboclo!!! Seu nome é Thiago Vaz, é negro sim senhor e como não podia deixar de ser usa uma boina vermelha. Ótimo!!!

A criatividade do nobre colega contribui interfere na paisagem urbana de modo NECESSÁRIO. O Saci representa a cultura e o folclore que precisa ser resgatado e as reivindicações e temas que o Saci exprime nas suas aparições são atuais e demonstram o que é de mais necessário resolver nessa terra: a desigualdade.

Parabéns pelo seu trabalho Thiago.

Videozinho do uol apresentando o projeto e o artista arteiro: http://mais.uol.com.br/view/1575mnadmj5c/saci-urbano-novo-personagem-nas-ruas-de-sao-paulo-04023760D0C12366?types=A&

Blog: http://eosaciurbano.wordpress.com/

Algumas fotos

Hallowen o cacete:

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